Por favor, enterrem 1968

Por: Jacques Meir 825 views

"Uma boa ideia para 2018, ano de muito debate acerca dos rumos que o país deve tomar, é enterrar 1968. O momento é de olhar para frente"

O ano de 2018 mal contou 10 dias e já vemos “analogias” e homenagens a um ano midiático e, por extensão, infelizmente considerado mítico: 1968. A revista Veja dedicou quase duas dezenas de páginas em sua edição inaugural do ano para demonstrar – no entender da publicação – as “fortes referências e influências de 1968” sentidas agora, 50 anos depois. Uma perda de tempo considerável e sem sentido.

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Por que temos tanto apego ao passado, ainda mais considerando uma época na qual o Brasil exibia farta debilidade política, comandado como republiqueta de Bananas, ao sabor de uma ditadura que se escancarava depois de quatro anos atuando de modo um tanto envergonhado (conforme definição de Elio Gaspari, melhor biógrafo do período)? Mesmo em um plano maior, onde incluímos movimentos culturais expressivos – para aquela década – e também manifestações políticas de algum peso histórico – a Primavera de Praga e as revoltas estudantis na Alemanha e na França, 1968 foi um ano que, quando muito, marcou o início de uma mídia que faz da ampliação dos fatos uma regra de ouro e da espetacularização e do exagero seu alimento.

Não, não há nada em 1968 que devemos considerar relevante para compreender ou pensar 2018, salvo o registro histórico que nos faz ter a dimensão dos fatos e enquadrá-los no contexto adequado. Estamos em um ano diferente, social, política, cultural e economicamente falando. O Brasil de 1968 mal tinha 90 milhões de pessoas. Hoje, somos mais de 202 milhões, dos quais, 90% vivendo em áreas urbanas. Somos uma sociedade razoavelmente digital, enquanto há 50 anos, mal se contabilizavam rádios nos confins do país. Vivemos em uma democracia, repleta de novos problemas, a anos luz de distância de governos autoritários, esquizofrênicos, que mal disfarçavam sua falta de traquejo com a política e o contraditório.

A sociedade hoje é mais atuante e tem voz, procurando acomodar e ser tolerante com todas as minorias, denunciando abusos e injustiças, coisas impensáveis 5 décadas atrás. O único traço que nos une a 1968, exceção a célebres personagens da época que ainda estão – felizmente – vivos e produtivos, é o limbo ideológico que nos aprisiona e nos faz reféns de uma polarização datada.

As ideias de nossa “esquerda” mais atuante politicamente são as mesmas do nada saudoso 1968: contrárias ao capitalismo de corte americano, inspiradas no bolchevismo tosco que hoje se fantasia de bolivarianismo do “século XXI”, e ainda imbuídas de uma “Missão superior” que conduzirá todos à Terra Prometida da fartura sem produção e investimento. O contraponto está justamente naqueles que guardam nostalgia do autoritarismo senil de 1968, vendendo uma ideia de “segurança” que desconhece por completo a realidade do Brasil de hoje, um país que está amarrado ao atraso e que tem medo de encarar o presente.

Uma boa ideia para 2018, ano de eleições e Copa do Mundo, de recuperação econômica e de muito debate acerca dos rumos que o país deve tomar, é enterrar 1968. Deixemos Daniel Cohn-Bendit e as pichações de “É proibido, proibir” para documentários e buscas do Google. Deixemos a Tropicália, Panis et Circensis, hippies, Flower Power, assassinatos de Bob Kennedy e Martin Luther King como fatos relevantes que ocupam seu lugar de direito na história. Deixemos o espírito juvenil de contestação como tendência sempre pronta a fazer barulho, a cada geração de modo diferente.

O momento é de olhar para frente, para o Brasil que queremos ser, que podemos ser daqui a 5 anos, preparando terreno para um país melhor e mais amigável e acolhedor em 2068. Temos problemas de sobra para perdermos tempo contemplando nostalgicamente um ano tão distante quanto 1968. É hora de trabalho e sacrifício. É o momento, sobretudo, de criarmos os fatos que possam fazer deste 2018 o ano em que nos livramos de um passado idealizado para sobrepujar as agruras do presente.

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